Alberto Carneiro
Alberto Carneiro (1937-2017) é um dos grandes nomes da arte portuguesa da segunda metade do século XX e início do século XXI.
Nascido em 1937, em São Mamede do Coronado, aprendeu o ofício de santeiro desde a infância, uma arte sacra ligada à história desta localidade nortenha que o escultor exerceu até aos vinte anos. Nessa altura, em horário noturno, iniciou os estudos na Escola Artística Soares dos Reis e, posteriormente, na Faculdade de Belas Artes do Porto aprofundou os seus conhecimentos de escultura.
Com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian viajou para Londres dando continuidade aos estudos na Saint Martin’s School onde conheceu os artistas Anthony Caro e Philip King, seus professores.
Os estudos do Zen, do Tantra e do Tao tornaram-no um conhecedor da psicologia profunda e do próprio corpo, o que o estimulou em vários momentos performativos junto da natureza e em espaço expositivo.
Começou a expor em 1963. Em 1965 leu A Poética do Espaço, de Gaston Bachelard, uma obra fundamental para o curso teórico da produção artística do escultor português.
Entre 1972 e 1985 foi diretor pedagógico e artístico do Círculo de Artes Plásticas da Universidade de Coimbra, depois foi professor na Escola de Belas Artes do Porto e na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.
Publicou vários cadernos e livros pedagógicos sobre as matérias que aprofundava nas aulas com outros autores como Elvira Leite e Manuela Malpique como também com os estudantes de desenho.
Em 1968, ano em que ganhou o Prémio Nacional de Escultura, começou a escrever As notas para um manifesto de uma arte ecológica que publicaria em 1973, um marco filosófico de toda a obra do autor e uma referência do seu pioneirismo ético e ambiental.
Este manifesto ecológico descreve uma profunda relação com a natureza que o artista manteve desde a infância até ao final da vida.
Alberto Carneiro realizou cerca de duzentas exposições individuais e coletivas, foi um notável defensor da Arte Pública e deixou ainda um enorme contributo nesse âmbito pelo que constitui hoje o Museu Internacional de Escultura (MIEC), em Santo Tirso, e o Parque Internacional de Escultura de Carrazeda de Ansiães (2000-09), que concebeu e organizou em diálogo com as autoridades locais e onde encontramos também obras suas.
Em 2015, Alberto Carneiro legou à cidade de Santo Tirso um conjunto de sessenta obras que constitui o principal acervo do CAAC, um espaço dedicado ao estudo e exercício da arte contemporânea nacional e internacional.
-
Seleção de Reflexões de Alberto Carneiro
- “Quem desenha (…) é simultaneamente sujeito e objecto”.
- “Só uma atitude naïfe me interessa; só nela é possível o enraizamento da minha autenticidade” (Notas para um diário, 1971)
- “A comunicação criadora autentica-se no âmbito do inconsciente, através das imagens das memórias mais profundas do ser e que são, afinal, o fulcro das atividades quotidianas” (Idem)
- “A natureza sonha nos meus olhos desde a infância” (5/5/65)
- “Quantas vezes adormeci entre as ervas? A minha primeira casa foi em cima da cerejeira que é hoje uma escultura. Entre o meu corpo e a terra houve sempre uma identidade profunda. A floresta ou a montanha que eu trabalho num tronco de árvore ou num bloco de pedra fazem parte integrante do meu ser”
- “A arte é, neste sentido, o mistério de si mesma, pois nunca se explica”.
- “Uma nuvem, uma árvore, uma flor, um punhado de terra, situam-se no mesmo plano estético em que nos movemos, são parte integrante do nosso mundo, são um manancial de sensações vindas de todos os tempos, através de uma memória que tem a idade do homem. Não a pedra pelo seu lado externo, pela conversão dos seus valores formais, mas pelas qualidades do seu íntimo, pelo cosmos que está nela e o qual nos é dado possuir na simplicidade em que a coisa vive.”
- “O romântico encontra o seu equilíbrio no caos do seu íntimo, na subversão do que vai criando”.
- “Do lado de dentro, a arte é um rio, uma árvore, uma nuvem, tudo, à imagem e semelhança de quem a sente e a diz. A arte é para quem a pensa a sua maneira de ser; sua: a dela-arte e a dele, que a pensa.” (cultura/contra/cultura, 1979)
- “Como poderia ser a forma gustativa dum fruto como escultura, transmudado noutra matéria? Tenho como certo ser possível formar a escultura pela consciência de forma de todas as sensações. Representação e percepção estão em íntima acção recíproca. A árvore, o fruto, o corpo, a história, o espaço, o tempo, o gesto sobre a matéria, a sucessão de significações.”



